"A internet promove a falsidade"
Não. Ela a amplifica. A falsidade não é um ato, é um fato. Não é comunicar uma inverdade, mas desejar a inverdade. E só é possível desejar a inverdade quando a verdade não representa nossos desejos. Assim foi o século XX, esse século de falsificação de massas. Do totalitarismo ao consumismo, do neocolonialismo aos blocos econômicos, do comunismo à globalização, foram forjados valores que falsificavam sua universalidade. A universalidade, um dos grandes temas da modernidade, foi uma mentira suja de cem anos de duração.
Dizer que a internet criou essa mentira é estar cego às bases de nossa sociedade. Ela sempre existiu: na medida em que a comunicação de massas permitiu a falsificação, a identidade pessoal tornou-se um transmissor de idéias, e não de verdades num sentido naturalista. Che Guevara não é uma pessoa. Marilyn Monroe não é uma pessoa. A foto de perfil não é uma pessoa. Quando a comunicação passou a ser impessoal, o emissor fundiu-se à mensagem. Mas quanto mais impessoal se torna a comunicação, mais esse emissor é mastigado pelas engrenagens do sentido.
E a internet está matando o emissor. Matando a identidade. Matando os próprios preconceitos que nos levaram um dia a achar que a verdade estava em sujeitos. Se a internet por um lado amplia e veicula os velhos meios, por outro ela os torna extremamente desconfortáveis. A internet primitiva, aquela que imita a alienação de massas antes vigente, alimenta nosso pessimismo informático. Mas a internet esclarecida, a internet sem líderes, sem bibliografia e inconstante por excelência, ensina cada vez mais que a veracidade e a falsidade estão nos predicados. E não há uma gota de exagero em dizer que essa lição está entre as mais importantes que a humanidade, como entidade una, já aprendeu.
Resta saber, apenas, quanto poder essa comuna anarquista global terá sobre sua comunidade. O quanto a internet mudará a alienação das massas, e o quanto a alienação das massas limitará a internet. Por enquanto, mantenho-me irremediavelmente otimista.
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quarta-feira, 24 de junho de 2015
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Algum dia...
"O que você quer?"
Essa é a pergunta mais importante do mundo. Sem exageros. De todas, todas as perguntas, essa é a mais importante. E até nos fazemos essa pergunta as vezes, mas não com muita frequência ou com um enfoque no futuro. A pergunta normalmente vem como "O que você quer fazer agora?" ou "O que você quer hoje?". Essas perguntas também são as mais importantes do mundo, mas lhes faltam as companheiras. "O que você quer na vida?". E quando nos perguntamos "O que eu quero na vida?", não relacionamos a pergunta com as milhares de "O que você quer hoje?" que nos fizemos, e vice-versa.
A maioria de nós tem preguiça dessa pergunta, mas realmente ela é a mais importante dentro de um ambiente. Faz algum sentido fazer algo sem saber se você quer? Somos mau educados (com 'u' mesmo) a fazermos escolhas sem pensar "O que eu quero na vida? Isso que estou escolhendo tem a ver com o que eu quero?". Começamos a vida na escola, um lugar do qual queremos vorazmente fugir, mas ao qual vamos todo dia mesmo assim. E tem gente que foge mesmo. Alguns porque realmente se perguntaram o que queriam, e concluiram que não era uma vida de cultura, mas muitos fugiram sem se perguntar o que queriam na vida, mas se perguntando "O que eu quero agora?". E aí entra uma noção de prioridades: uma escada de quereres.
Por mim, comer um salgado na cantina é algo que devemos frequentemente confrontar com "Isso está certo na minha vida?". Mas como avaliar se comer um salgado muda sua vida para melhor ou para pior? É exatamente isso que nos falta: a capacidade de expandir os efeitos de algo, independente da sua intensidade, para os interesses de uma vida. Voltando ao salgado, acho que a maioria das pessoas poderia seguir por um caminho bem semelhante: o prazer de degustar um salgado e matar sua fome versus suas expectativas de saúde e longevidade.
Salgado é gostoso. Salgado é calórico. Se você tem uma adoração profunda por salgados, se eles lhe trazem um prazer genuíno quando você consome, que supera mil vezes a dor de não tê-lo quando você não pode, o lado 'gostoso' pesa mais. Se você não gosta muito, ou gosta mas tem compulsão, ou vício, e passa mais sofrimento querendo o salgado do que prazer comendo, o lado 'gostoso' pesa menos. Se você tem problemas de saúde, é sedentário, está acima do peso, e não faz refeições saudáveis, o lado 'saudável' pesa mais. Se você faz exercícios diariamente, faz refeições leves e está comendo aquele salgado esporadicamente, o lado 'saudável' pesa menos.
Mas não podemos fazer a pesagem ainda, porque precisamos nos aprofundar. Sempre precisamos nos aprofundar. O quanto é importante para sua vida o prazer hedonista de comer? E o quanto é importante a longevidade, a saúde, a integridade do corpo? Cada lado da balança será ponderado pelo quanto ele é importante para sua vida. E é aí que você, que lê este texto, com certeza está pensando "todo esse esforço por um salgado?". Porque pensar no quanto as coisas são importantes para a sua vida é um esforço. E é um esforço porque você ainda não ganhou um know-how nisso.
Eu posso fazer uma rápida revisão dos conceitos de toda a minha vida sem esforço em dois segundos (normalmente eu levo uns cinco, para garantir), porque já sei, por experiência, o quanto cada coisa é importante para mim.
Sei que o propósito da minha vida é ser feliz, com um misto de desapego e satisfação de prazeres mundanos e elevados sem preconceitos ou distinções, e na medida em que minha disposição me permitir, ajudar as pessoas a pensarem de modos diferenciados, fazendo um pequeno entalhe em uma sociedade mais reflexiva, tolerante e, acima de tudo, satisfeita.
Eu enunciei este último parágrafo para mim mesmo há quase nove anos, e, com pequenas paráfrases e mudanças, eu consigo sentir sua relevância nos diversos aspectos da minha vida em uma fração de segundo. Eu não preciso pensar tudo isso, já está estabelecido. A pergunta "O que você quer?" opera e se responde sozinha, em uma velocidade tal que posso, com muita certidão, basear a escolha de comer um salgado em toda a minha experiência de vida. Claro que as vezes (ou frequentemente) ela falha, e aí surge um Guilherme com defeitos. Mas posso dizer que minha vida mudou vorazmente depois que eu comecei a pensar quase todo dia no que eu quero fazer antes de morrer, e em como isso influencia o que vou fazer agora.

Meu prazer não depende muito de disposição física... Não faço questão de longevidade... O lado "saudável" fica fraco. Não faço questão de boas aparências, mesmo que isso prejudique ligeiramente minha carreira... A aparência do gordo não me apela mal. Sou apaixonado por comer, tenho uma disposição ímpar para comer e ficar muito, muito feliz com isso... O lado "gostoso" fica forte. Guilherme compra e come o salgado.
(Nota: estou comendo enquanto escrevo esta linha)
Naturalmente, quanto mais rápida tem que ser a decisão, mais simples a análise. Alias, por isso temos instintos: para garantir que não precisemos lembrar que sobreviver é bom na hora de sair correndo de uma jaguatirica assassina.
A longo prazo, porém, a atuação dos instintos fica mais fraca, e nossa razão pode contrariá-los. O instinto não impedia o seppuku dos samurais, porque eles reviam toda a sua honra, seu bushido, antes de fazê-lo, e concluíam que era isso que queriam.
E a prazos mais longos ainda... A liberdade se torna muito forte. E também o querer. Nosso querer é mais profundo quanto mais longe olhamos. Por isso resoluções de ano novo são tão profundas, elas tem um tempo relativamente longo em vista. Religiões frequentemente dão olhos à eternidade, e por isso são tidas como as coisas mais importantes e profundas de uma vida... Mas as vezes nos esquecemos de que as ações do dia a dia, o ônibus que pegamos, o salgado que comemos, a escola que frequentamos, são cada um uma pequena parte desses propósitos maiores. Só vamos cumprir nossas resoluções de ano novo se lembrarmos delas a cada dia (por isso mesmo eu coloquei minhas resoluções de ano novo no desktop, para estar diariamente pensando nelas). E assim devemos sempre nos conectar com nossos objetivos distantes, todos os dias.
Eu tenho certeza que isso soa perturbador e exaustivo para muita gente, mas isso é culpa dos seus objetivos de longo-prazo. Se vamos pensar neles todos os dias, eles tem que refletir o que somos no dia a dia. Não adianta mesmo só ter objetivos nobres, altuístas e construtivos. Isso eu descobri em uma crise existencial ao longo de 2012-2013, e por isso meu primeiro objetivo para 2014 é, com essas palavras, "me divertir pra caramba". Eu sei que, no dia a dia, me divertir é importante, até mais importante do que fazer bem ao mundo, então eu levo isso em conta. É o que quero. E os meus objetivos de curto prazo são realizados todo dia, como de todo mundo, mas os de longo prazo estão sempre em vista e atividade também.
Esse bom entendimento é uma das coisas que pode nos tirar o medo da morte, do qual falarei em um outro post muito bombástico, algum dia...
Essa é a pergunta mais importante do mundo. Sem exageros. De todas, todas as perguntas, essa é a mais importante. E até nos fazemos essa pergunta as vezes, mas não com muita frequência ou com um enfoque no futuro. A pergunta normalmente vem como "O que você quer fazer agora?" ou "O que você quer hoje?". Essas perguntas também são as mais importantes do mundo, mas lhes faltam as companheiras. "O que você quer na vida?". E quando nos perguntamos "O que eu quero na vida?", não relacionamos a pergunta com as milhares de "O que você quer hoje?" que nos fizemos, e vice-versa.
A maioria de nós tem preguiça dessa pergunta, mas realmente ela é a mais importante dentro de um ambiente. Faz algum sentido fazer algo sem saber se você quer? Somos mau educados (com 'u' mesmo) a fazermos escolhas sem pensar "O que eu quero na vida? Isso que estou escolhendo tem a ver com o que eu quero?". Começamos a vida na escola, um lugar do qual queremos vorazmente fugir, mas ao qual vamos todo dia mesmo assim. E tem gente que foge mesmo. Alguns porque realmente se perguntaram o que queriam, e concluiram que não era uma vida de cultura, mas muitos fugiram sem se perguntar o que queriam na vida, mas se perguntando "O que eu quero agora?". E aí entra uma noção de prioridades: uma escada de quereres.
Por mim, comer um salgado na cantina é algo que devemos frequentemente confrontar com "Isso está certo na minha vida?". Mas como avaliar se comer um salgado muda sua vida para melhor ou para pior? É exatamente isso que nos falta: a capacidade de expandir os efeitos de algo, independente da sua intensidade, para os interesses de uma vida. Voltando ao salgado, acho que a maioria das pessoas poderia seguir por um caminho bem semelhante: o prazer de degustar um salgado e matar sua fome versus suas expectativas de saúde e longevidade.
Salgado é gostoso. Salgado é calórico. Se você tem uma adoração profunda por salgados, se eles lhe trazem um prazer genuíno quando você consome, que supera mil vezes a dor de não tê-lo quando você não pode, o lado 'gostoso' pesa mais. Se você não gosta muito, ou gosta mas tem compulsão, ou vício, e passa mais sofrimento querendo o salgado do que prazer comendo, o lado 'gostoso' pesa menos. Se você tem problemas de saúde, é sedentário, está acima do peso, e não faz refeições saudáveis, o lado 'saudável' pesa mais. Se você faz exercícios diariamente, faz refeições leves e está comendo aquele salgado esporadicamente, o lado 'saudável' pesa menos.
Mas não podemos fazer a pesagem ainda, porque precisamos nos aprofundar. Sempre precisamos nos aprofundar. O quanto é importante para sua vida o prazer hedonista de comer? E o quanto é importante a longevidade, a saúde, a integridade do corpo? Cada lado da balança será ponderado pelo quanto ele é importante para sua vida. E é aí que você, que lê este texto, com certeza está pensando "todo esse esforço por um salgado?". Porque pensar no quanto as coisas são importantes para a sua vida é um esforço. E é um esforço porque você ainda não ganhou um know-how nisso.
Eu posso fazer uma rápida revisão dos conceitos de toda a minha vida sem esforço em dois segundos (normalmente eu levo uns cinco, para garantir), porque já sei, por experiência, o quanto cada coisa é importante para mim.
Sei que o propósito da minha vida é ser feliz, com um misto de desapego e satisfação de prazeres mundanos e elevados sem preconceitos ou distinções, e na medida em que minha disposição me permitir, ajudar as pessoas a pensarem de modos diferenciados, fazendo um pequeno entalhe em uma sociedade mais reflexiva, tolerante e, acima de tudo, satisfeita.
Eu enunciei este último parágrafo para mim mesmo há quase nove anos, e, com pequenas paráfrases e mudanças, eu consigo sentir sua relevância nos diversos aspectos da minha vida em uma fração de segundo. Eu não preciso pensar tudo isso, já está estabelecido. A pergunta "O que você quer?" opera e se responde sozinha, em uma velocidade tal que posso, com muita certidão, basear a escolha de comer um salgado em toda a minha experiência de vida. Claro que as vezes (ou frequentemente) ela falha, e aí surge um Guilherme com defeitos. Mas posso dizer que minha vida mudou vorazmente depois que eu comecei a pensar quase todo dia no que eu quero fazer antes de morrer, e em como isso influencia o que vou fazer agora.

Meu prazer não depende muito de disposição física... Não faço questão de longevidade... O lado "saudável" fica fraco. Não faço questão de boas aparências, mesmo que isso prejudique ligeiramente minha carreira... A aparência do gordo não me apela mal. Sou apaixonado por comer, tenho uma disposição ímpar para comer e ficar muito, muito feliz com isso... O lado "gostoso" fica forte. Guilherme compra e come o salgado.
(Nota: estou comendo enquanto escrevo esta linha)
Naturalmente, quanto mais rápida tem que ser a decisão, mais simples a análise. Alias, por isso temos instintos: para garantir que não precisemos lembrar que sobreviver é bom na hora de sair correndo de uma jaguatirica assassina.
A longo prazo, porém, a atuação dos instintos fica mais fraca, e nossa razão pode contrariá-los. O instinto não impedia o seppuku dos samurais, porque eles reviam toda a sua honra, seu bushido, antes de fazê-lo, e concluíam que era isso que queriam.
E a prazos mais longos ainda... A liberdade se torna muito forte. E também o querer. Nosso querer é mais profundo quanto mais longe olhamos. Por isso resoluções de ano novo são tão profundas, elas tem um tempo relativamente longo em vista. Religiões frequentemente dão olhos à eternidade, e por isso são tidas como as coisas mais importantes e profundas de uma vida... Mas as vezes nos esquecemos de que as ações do dia a dia, o ônibus que pegamos, o salgado que comemos, a escola que frequentamos, são cada um uma pequena parte desses propósitos maiores. Só vamos cumprir nossas resoluções de ano novo se lembrarmos delas a cada dia (por isso mesmo eu coloquei minhas resoluções de ano novo no desktop, para estar diariamente pensando nelas). E assim devemos sempre nos conectar com nossos objetivos distantes, todos os dias.
Eu tenho certeza que isso soa perturbador e exaustivo para muita gente, mas isso é culpa dos seus objetivos de longo-prazo. Se vamos pensar neles todos os dias, eles tem que refletir o que somos no dia a dia. Não adianta mesmo só ter objetivos nobres, altuístas e construtivos. Isso eu descobri em uma crise existencial ao longo de 2012-2013, e por isso meu primeiro objetivo para 2014 é, com essas palavras, "me divertir pra caramba". Eu sei que, no dia a dia, me divertir é importante, até mais importante do que fazer bem ao mundo, então eu levo isso em conta. É o que quero. E os meus objetivos de curto prazo são realizados todo dia, como de todo mundo, mas os de longo prazo estão sempre em vista e atividade também.
Esse bom entendimento é uma das coisas que pode nos tirar o medo da morte, do qual falarei em um outro post muito bombástico, algum dia...
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Desvendando tabus: viva a sinceridade, abaixo a intimidade!
"Não julgues para não ser julgado"

Por muito tempo essa mácula de ideia passeou pela mente dos homens. Fruto de insegurança! O que é o juízo de um homem para outro? Julgar é avaliar, e sem a avaliação, a vida seria vazia.
Não querer ser julgado é querer a pompa de definir-se bom ou mau independente dos resultados de suas ações. Não querer ser julgado é ter virtudes tão fracas que não as saberia defender. Porque temer as críticas, se você está certo? E se não está, como não querer que o digam?
Pois eu digo "julgue sempre, e esteja pronto para ser julgado". Teme os fascistas, os extremistas, os fanáticos? Deixa-os falar, e mais, estimula-os a falar. Quanto mais falarem, mais ouvirão, quanto mais ouvirem, mais pensarão. E se, enfim, estiverem errados, podem perceber isso de verdade.
Não use discursos de ódio, nem contra os odiosos, mas use sim seu poder de discordar, criticar e rotular.
"Não se importe com o que os outros pensam" me dizem, mas eu sou ridículo se não quero tomar banho ou cortar as unhas, independente do que os outros pensam. Se importe, sim, com o que os outros pensam, mas na medida em que isso fizer sentido para você, e em nada mais. Ficamos divididos entre seguir cegamente um juízo alheio ou ignorar cegamente o juízo alheio.
Abra os olhos, ouça com humildade, ponha o juízo alheio em luta justa com o seu próprio, e honre o vencedor. Mas lembre-se que quem determina o vencedor é você. Quando mais sua ideia for criticada, mais ouça as críticas. Se for mesmo uma boa ideia sobreviverá a todas. Não alimente insegurança com o que pensa nem medo do que dizem. Seja humilde em abrir mão do que pensa em favor do que pensa o outro. A identidade do pensar será sempre sua, mesmo que venha de outra pessoa. Não acredite na primeira coisa que fizer sentido, há infinitas maneiras erradas de fazer sentido. Seja cético, que tudo é criticável.
Eu digo, então: "Use, como ferramenta, o que os outros pensam".
"E tem que pedir?"
Ouvi isso certa vez de um homem que ralhava comigo e com meus amigos, porque estávamos sentados "no lugar errado", ou seja, no assento preferencial do ônibus. Ele dizia isso em defesa de uma mulher, que não estava grávida nem com criança de colo, não era idosa ou deficiente, mas era de meia-idade. A mulher ficou mais sem-graça com a exposição do que satisfeita. Obviamente eu disse que ela não tinha preferência, pois não se enquadrava na mobilidade reduzida, mas que se ela quisesse sentar, ela mesma podia pedir. A resposta, marcada por um tom de indignação com uma desfeita minha, foi "e tem que pedir?"
Esse raciocínio eu levo para a vida: tudo o que não está pré-determinado tem de ser pedido. Por que? Porque como seres humanos, temos vontades. E se nossas vontades entram em conflito, temos de discutir. Nosso poder de diálogo é um dos motivos pelos quais podemos nos dar ao luxo de ter desejos. Recentemente quase perdi uma amizade por causa de um mal entendido que não vieram resolver comigo. Seria a segunda ou terceira que perco assim. Se você tem algo contra mim, me diga! Se eu me ofender porque você pensa algo de mim, eu é que estou errado. Ninguém deveria se ofender com a verdade. Se você estiver errado, eu vou lhe dizer. Eu sei que as pessoas me julgam, acabei de escrever neste post que julgar é correto. E se alguém me julga de uma forma que não acho que sou, eu quero saber.
Se você me fizer um pedido completamente absurdo, como "Gui, você poderia por favor cometer suicídio?", eu vou simplesmente responder "não, porquê?". Você não me ofende perguntando. Não me ofende nem desejando minha morte. Se você é um amigo íntimo, isso talvez muda minha opinião sobre você, mas não me ofende. E se você quer que eu me mate e não me diz, você está omitindo quem é. Há um aspecto de você que você não pode me mostrar, por medo de ser julgado. Novamente, julgue sempre, e esteja pronto para ser julgado. Se você me odeia, me diga. Se quer que eu me mate, me peça. Reservo, também, o direito de dizer não. Aí entram os acordos de um relacionamento. Tem pedidos aos quais não podemos dizer não, que são na verdade ordens. As ordens tem de vir pré-estabelecidas em contratos, em relacionamentos amigáveis ou judiciais. O que não está pré-estabelecido como ordem, ou obrigação, pode sempre ser pedido, e quem recebeu o pedido tem pleno direito de dizer "sim" ou "não", sem poder ser reprimido por qualquer resposta que der. Acabo de compor uma quadrinha sobre isso:
O que não está no acordo da relação
Pré-estabelecido como obrigação
Pode ser pedido, aceito ou negado.
Isso é um direito sagrado

De fato, nossa sociedade tem um bloqueio com o pedido. Pedir é um ato de oportunismo egoísta. Novamente, fruto de insegurança! Do que temos medo? De abusar da boa-vontade de alguém? Se a boa-vontade é minha, eu é que tenho que me policiar para não tê-la abusada. Não existe "abusar da boa vontade de alguém", existe "deixar abusarem da sua vontade, da má-vontade mesmo". Abuso é violência, e não existe violência consensual. Se você se sente pressionado pelos pedidos, é porque não está exercendo seu inalienável direito de dizer "não". E se alguém, sem perceber isso, está lhe pedindo, é simplesmente porque quer, e não supõe que seja problema para você.
É claro que existe a coerção, na qual você sabe que a pessoa não dirá não, mesmo podendo e querendo, e abusa dessa fraqueza. Isso é errado, e é culpa do abusador, mas também é culpa, indiretamente, do coagido (a menos que seja alguém que tem naturalmente essa fraqueza, como uma criança ou um deficiente mental).
Resumindo o post com uma visão de mundo: eu acredito em um mundo onde se dê a cara para bater, onde você diga às pessoas o que pensa delas, e elas estejam prontas para que você diga o que pensa. Talvez não na mesma hora em que pensar, mas depois de refletir e ter certeza de que não está sendo precipitado. Um mundo onde a sinceridade seja uma verdadeira virtude e a intimidade seja um defeito. Não a sinceridade dos fatos, mas a dos defeitos. Não sou contra a mentira, sou contra a omissão prolongada e a vergonha. E também não a intimidade do individualismo, mas a do segredo e do egoísmo. Um mundo sem falsas amizades, fracas amizades, ou casamentos idílicos que acabam porque as pessoas percebem que não se conheciam realmente. Um mundo de livros abertos, porque é sendo um livro aberto que você é lido, e sendo um livro fechado, você será julgado pela capa.
Por muito tempo essa mácula de ideia passeou pela mente dos homens. Fruto de insegurança! O que é o juízo de um homem para outro? Julgar é avaliar, e sem a avaliação, a vida seria vazia.
Não querer ser julgado é querer a pompa de definir-se bom ou mau independente dos resultados de suas ações. Não querer ser julgado é ter virtudes tão fracas que não as saberia defender. Porque temer as críticas, se você está certo? E se não está, como não querer que o digam?
Pois eu digo "julgue sempre, e esteja pronto para ser julgado". Teme os fascistas, os extremistas, os fanáticos? Deixa-os falar, e mais, estimula-os a falar. Quanto mais falarem, mais ouvirão, quanto mais ouvirem, mais pensarão. E se, enfim, estiverem errados, podem perceber isso de verdade.
Não use discursos de ódio, nem contra os odiosos, mas use sim seu poder de discordar, criticar e rotular.
"Não se importe com o que os outros pensam" me dizem, mas eu sou ridículo se não quero tomar banho ou cortar as unhas, independente do que os outros pensam. Se importe, sim, com o que os outros pensam, mas na medida em que isso fizer sentido para você, e em nada mais. Ficamos divididos entre seguir cegamente um juízo alheio ou ignorar cegamente o juízo alheio.
Abra os olhos, ouça com humildade, ponha o juízo alheio em luta justa com o seu próprio, e honre o vencedor. Mas lembre-se que quem determina o vencedor é você. Quando mais sua ideia for criticada, mais ouça as críticas. Se for mesmo uma boa ideia sobreviverá a todas. Não alimente insegurança com o que pensa nem medo do que dizem. Seja humilde em abrir mão do que pensa em favor do que pensa o outro. A identidade do pensar será sempre sua, mesmo que venha de outra pessoa. Não acredite na primeira coisa que fizer sentido, há infinitas maneiras erradas de fazer sentido. Seja cético, que tudo é criticável.
Eu digo, então: "Use, como ferramenta, o que os outros pensam".
"E tem que pedir?"
Ouvi isso certa vez de um homem que ralhava comigo e com meus amigos, porque estávamos sentados "no lugar errado", ou seja, no assento preferencial do ônibus. Ele dizia isso em defesa de uma mulher, que não estava grávida nem com criança de colo, não era idosa ou deficiente, mas era de meia-idade. A mulher ficou mais sem-graça com a exposição do que satisfeita. Obviamente eu disse que ela não tinha preferência, pois não se enquadrava na mobilidade reduzida, mas que se ela quisesse sentar, ela mesma podia pedir. A resposta, marcada por um tom de indignação com uma desfeita minha, foi "e tem que pedir?"
Esse raciocínio eu levo para a vida: tudo o que não está pré-determinado tem de ser pedido. Por que? Porque como seres humanos, temos vontades. E se nossas vontades entram em conflito, temos de discutir. Nosso poder de diálogo é um dos motivos pelos quais podemos nos dar ao luxo de ter desejos. Recentemente quase perdi uma amizade por causa de um mal entendido que não vieram resolver comigo. Seria a segunda ou terceira que perco assim. Se você tem algo contra mim, me diga! Se eu me ofender porque você pensa algo de mim, eu é que estou errado. Ninguém deveria se ofender com a verdade. Se você estiver errado, eu vou lhe dizer. Eu sei que as pessoas me julgam, acabei de escrever neste post que julgar é correto. E se alguém me julga de uma forma que não acho que sou, eu quero saber.
Se você me fizer um pedido completamente absurdo, como "Gui, você poderia por favor cometer suicídio?", eu vou simplesmente responder "não, porquê?". Você não me ofende perguntando. Não me ofende nem desejando minha morte. Se você é um amigo íntimo, isso talvez muda minha opinião sobre você, mas não me ofende. E se você quer que eu me mate e não me diz, você está omitindo quem é. Há um aspecto de você que você não pode me mostrar, por medo de ser julgado. Novamente, julgue sempre, e esteja pronto para ser julgado. Se você me odeia, me diga. Se quer que eu me mate, me peça. Reservo, também, o direito de dizer não. Aí entram os acordos de um relacionamento. Tem pedidos aos quais não podemos dizer não, que são na verdade ordens. As ordens tem de vir pré-estabelecidas em contratos, em relacionamentos amigáveis ou judiciais. O que não está pré-estabelecido como ordem, ou obrigação, pode sempre ser pedido, e quem recebeu o pedido tem pleno direito de dizer "sim" ou "não", sem poder ser reprimido por qualquer resposta que der. Acabo de compor uma quadrinha sobre isso:
O que não está no acordo da relação
Pré-estabelecido como obrigação
Pode ser pedido, aceito ou negado.
Isso é um direito sagrado

De fato, nossa sociedade tem um bloqueio com o pedido. Pedir é um ato de oportunismo egoísta. Novamente, fruto de insegurança! Do que temos medo? De abusar da boa-vontade de alguém? Se a boa-vontade é minha, eu é que tenho que me policiar para não tê-la abusada. Não existe "abusar da boa vontade de alguém", existe "deixar abusarem da sua vontade, da má-vontade mesmo". Abuso é violência, e não existe violência consensual. Se você se sente pressionado pelos pedidos, é porque não está exercendo seu inalienável direito de dizer "não". E se alguém, sem perceber isso, está lhe pedindo, é simplesmente porque quer, e não supõe que seja problema para você.
É claro que existe a coerção, na qual você sabe que a pessoa não dirá não, mesmo podendo e querendo, e abusa dessa fraqueza. Isso é errado, e é culpa do abusador, mas também é culpa, indiretamente, do coagido (a menos que seja alguém que tem naturalmente essa fraqueza, como uma criança ou um deficiente mental).
Resumindo o post com uma visão de mundo: eu acredito em um mundo onde se dê a cara para bater, onde você diga às pessoas o que pensa delas, e elas estejam prontas para que você diga o que pensa. Talvez não na mesma hora em que pensar, mas depois de refletir e ter certeza de que não está sendo precipitado. Um mundo onde a sinceridade seja uma verdadeira virtude e a intimidade seja um defeito. Não a sinceridade dos fatos, mas a dos defeitos. Não sou contra a mentira, sou contra a omissão prolongada e a vergonha. E também não a intimidade do individualismo, mas a do segredo e do egoísmo. Um mundo sem falsas amizades, fracas amizades, ou casamentos idílicos que acabam porque as pessoas percebem que não se conheciam realmente. Um mundo de livros abertos, porque é sendo um livro aberto que você é lido, e sendo um livro fechado, você será julgado pela capa.
domingo, 15 de setembro de 2013
Multidões: sardinhas e shows.
Todos aqueles que moram ou já moraram em uma cidade grande sabem o que é uma multidão, e como se sentem em relação a ela. Especialmente quem depende do transporte público. Mas mesmo o mais rico, frequentador de Itau Personalité e que nunca pegou um ônibus na vida precisa eventualmente ir a um poupatempo fazer um documento. Sim, todos nós já estivemos defronte de uma grande extensão de espaço ocupado por muita gente.
A maioria das pessoas sente algo diferente em multidões, e geralmente é um incômodo. De fato, ninguém gosta de pegar o metrô na Sé as seis da tarde numa sexta-feira. Ou será que gosta?
A questão é: qual é o problema de uma multidão? Por que nos estressa? "Ah, me estressa muito". Eu sei, eu sei, mas a pergunta é: que mecanismo leva a visão de muitas pessoas ao seu redor à sua angústia.
Pode ser porque sua mobilidade pessoal fica reduzida e a temperatura aumenta. Apesar disso, outros casos extremos assim, como o Rock in Rio, ou qualquer balda lotada, são bem mais toleráveis. Você preferiria assistir um show sozinho, ou estar na multidão sufocante? Prefere uma balada com pouca gente ou uma balada "bombando"? Eu, que não sou um grande fã de shows ao vivo e detesto baladas, sou suspeito para responder, mas percebo que existe um apelo na multidão do show que não existe, definitivamente, no metrô.
Talvez seja porque, no show e na balada, estamos em uma atividade de lazer. Mas não podemos ouvir música, com um fone de ouvido, na multidão do metrô? Qual é, efetivamente, a diferença entre a atividade de lazer e a locomoção?
A melhor resposta que tenho para isso se relaciona com uma natureza primordial do paulistano: numa conurbação de 11 milhões de pessoas, metade da população da Austrália inteira, precisamos nos afastar do desconhecido, e abraçar padrões. Temos medo de uma multidão gerada aleatoriamente, e ficamos confiantes com um padrão que podemos associar a todas as pessoas à nossa volta. Por isso existe toda uma divisão de estilos de baladas, com tipos diferentes de músicas e, mesmo quando tocam as mesmas músicas, ambientes diferentes chamando públicos diferentes. Por isso reclamamos do Rock in Rio tocar música Pop. Por isso existe uma certa aversão de algumas pessoas ao Carnaval, embora exista um estilo carnavalesco, ele não é específico o suficiente para muita gente.
Quando não podemos dizer nada sobre a pessoa ao nosso lado, temos medo dela. Não confiamos nas estatísticas, não queremos saber se alguém vai mesmo nos fazer mal, não estamos dispostos a arriscar, a menos que conheçamos o gosto musical ou o padrão estético da multidão, e não necessariamente a quantidade de pessoas de má intenção.
Existe também, especificamente em baladas, um fenômeno que pretendo desenvolver em outra postagem: a transgressão coletiva. Nos sentimos bem em estarmos em um ambiente onde todos podem transgredir algumas regras, e isso porque acreditamos nelas, mas queremos transgredi-las em um lugar onde todos estejam, para aliviar nossa culpa individual. Nesse caso, quanto mais gente, e quanto mais gente por metro quadrado ficando, mais seguro você se sente para fazê-lo também.
Nas multidões aleatórias, nos sentimos obrigados a ficar alerta, a prestar uma atenção preocupada em tudo. A mesma quantidade de atenção que prestamos em pessoas bonitas na balada, mas uma atenção tensa, cuidadosa. Assim, recebemos um overflow de informações, que nos estressa enfim. Com o trânsito funciona de uma forma muito semelhante.
Agora você pergunta "Ok, concordo com sua teoria legal, mas... E daí? O que posso fazer a respeito?" Lembre-se do propósito deste blog, que eu expliquei no primeiro post: eu quero mudar o imutável. Nesse caso, o imutável nem é tão imutável assim. Ele parece ser porque é muito coletivo. Justamente por multidões serem cheias de gente, tem muita gente se preocupando com elas. Quando um fenômeno social é muito amplamente aceito, ele parece imutável. Não é. Algumas coisas são difíceis de mudar, mas a sensação de estar em uma multidão é quase totalmente psicológica, e o que é psicológico pode ser mudado psicologicamente, através de compreensão e motivação (não estou falando de claustrofobia, mas do seu precursor não-patológico, que você pode tratar sozinho).
É possível não se incomodar com multidões. É possível andar pela estação da Sé as seis da tarde como se estivesse simplesmente passeando por um parque. O importante é mudar o efeito de cada informação para você. Informação-pessoa, nesse caso. O que é, para você paulistano, um outro paulistano? O noticiário nos mostra, todos os dias, casos de assassinato, atropelamento, estupro, violência, sofrimento, morte. A questão é que não tomamos esses casos estatisticamente. Preocupar-se vale a pena? Vou dedicar ainda outra postagem só a essa pergunta, então não digo muito.
Mas posso adiantar que, pelo menos nas multidões, por mais aleatórias que sejam, por mais desconhecidos que sejam os desconhecidos, são só pessoas. Eles estão com tanto medo de você quanto você deles, e se algum deles realmente quiser fazer mal, bem, é uma multidão, a chance de ser você é pequena. E acredite, preocupar-se não vai adiantar. Ser cuidadoso sim: mantenha seus pertences bem fechados e os zíperes ao alcance da sua vista. Fora isso, não há o que fazer. Não compensa viver com medo para salvaguardar seus pertences que, no fim, você vai acabar perdendo em situações nas quais toda a preocupação do mundo não os salvaria.
Faça o exercício: da próxima vez que encontrar uma multidão, dessas que angustiam, olhe para as pessoas e tente criar histórias divertidas para a vida delas. "Este aqui teve uma infância difícil, saiu de casa muito cedo, mas se deu bem na vida", "este aqui coleciona tampinhas de garrafa, uma das maiores coleções da cidade, e tem um filho muito bonito". Tente aproximar as pessoas de você (metaforicamente falando), sentir-se mais a vontade em um grupo de pessoas que, no final das contas, tem muito a ver com você, embora você não saiba o quê, exatamente. Aos poucos, comece a ignorá-las. Não veja o lugar como se estivesse vazio, não sonhe com praias desertas, não fuja da ideia da multidão, enfrente-a. Se você for como eu, as vezes vai sentir um calor súbito, que dá a angustiante sensação de que seu corpo vai continuar esquentando para sempre. Relaxe, e deixe o calor passar. Ele vai passar, porque não é calor, é nervosismo (a menos que seja mesmo calor, caso no qual recomendo muito um ventiladorzinho portátil). Ouça música, jogue no celular, leia um livro, ou simplesmente aproveite a caminhada/espera/viagem para refletir, sonhar, imaginar, criar. Nosso tempo é nosso, nossa mente é nossa, e funciona sozinha ou acompanhada. E não ignore a multidão. Seu propósito é se acostumar com ela, estar bem com ela, não fugir dela. É difícil fugir de algo que literalmente te cerca. Lembre-se: se você não pensar "quero me acostumar com a multidão" quando estiver lá, não vai fazer nenhum movimento consciente, e vai estar largado ao aleatório, um aleatório muito mais perigoso do que uma multidão quieta esperando o metrô: o aleatório tendencioso das influências humanas, do "já que todos se estressam..."
Afinal, a multidão não é uma oportunidade? Eu, pessoalmente, ando sempre com uma folha sulfite com a palavra "sorria" impressa nela, bem grande. Quando me sinto a vontade, levanto a placa no metrô e nos lugares lotados. Outro dia conto minha experiência com isso detalhadamente, o que posso dizer é que eu acabo ficando feliz com as multidões, porque significa muita gente para expor à minha humilde e bem humorada intervenção urbana.
Lembre-se: a multidão é você também. Somos todos pedacinhos de multidão, e o medo não compensa.
É possível não se incomodar com multidões. É possível andar pela estação da Sé as seis da tarde como se estivesse simplesmente passeando por um parque. O importante é mudar o efeito de cada informação para você. Informação-pessoa, nesse caso. O que é, para você paulistano, um outro paulistano? O noticiário nos mostra, todos os dias, casos de assassinato, atropelamento, estupro, violência, sofrimento, morte. A questão é que não tomamos esses casos estatisticamente. Preocupar-se vale a pena? Vou dedicar ainda outra postagem só a essa pergunta, então não digo muito.
Mas posso adiantar que, pelo menos nas multidões, por mais aleatórias que sejam, por mais desconhecidos que sejam os desconhecidos, são só pessoas. Eles estão com tanto medo de você quanto você deles, e se algum deles realmente quiser fazer mal, bem, é uma multidão, a chance de ser você é pequena. E acredite, preocupar-se não vai adiantar. Ser cuidadoso sim: mantenha seus pertences bem fechados e os zíperes ao alcance da sua vista. Fora isso, não há o que fazer. Não compensa viver com medo para salvaguardar seus pertences que, no fim, você vai acabar perdendo em situações nas quais toda a preocupação do mundo não os salvaria.
Faça o exercício: da próxima vez que encontrar uma multidão, dessas que angustiam, olhe para as pessoas e tente criar histórias divertidas para a vida delas. "Este aqui teve uma infância difícil, saiu de casa muito cedo, mas se deu bem na vida", "este aqui coleciona tampinhas de garrafa, uma das maiores coleções da cidade, e tem um filho muito bonito". Tente aproximar as pessoas de você (metaforicamente falando), sentir-se mais a vontade em um grupo de pessoas que, no final das contas, tem muito a ver com você, embora você não saiba o quê, exatamente. Aos poucos, comece a ignorá-las. Não veja o lugar como se estivesse vazio, não sonhe com praias desertas, não fuja da ideia da multidão, enfrente-a. Se você for como eu, as vezes vai sentir um calor súbito, que dá a angustiante sensação de que seu corpo vai continuar esquentando para sempre. Relaxe, e deixe o calor passar. Ele vai passar, porque não é calor, é nervosismo (a menos que seja mesmo calor, caso no qual recomendo muito um ventiladorzinho portátil). Ouça música, jogue no celular, leia um livro, ou simplesmente aproveite a caminhada/espera/viagem para refletir, sonhar, imaginar, criar. Nosso tempo é nosso, nossa mente é nossa, e funciona sozinha ou acompanhada. E não ignore a multidão. Seu propósito é se acostumar com ela, estar bem com ela, não fugir dela. É difícil fugir de algo que literalmente te cerca. Lembre-se: se você não pensar "quero me acostumar com a multidão" quando estiver lá, não vai fazer nenhum movimento consciente, e vai estar largado ao aleatório, um aleatório muito mais perigoso do que uma multidão quieta esperando o metrô: o aleatório tendencioso das influências humanas, do "já que todos se estressam..."
Afinal, a multidão não é uma oportunidade? Eu, pessoalmente, ando sempre com uma folha sulfite com a palavra "sorria" impressa nela, bem grande. Quando me sinto a vontade, levanto a placa no metrô e nos lugares lotados. Outro dia conto minha experiência com isso detalhadamente, o que posso dizer é que eu acabo ficando feliz com as multidões, porque significa muita gente para expor à minha humilde e bem humorada intervenção urbana.
Lembre-se: a multidão é você também. Somos todos pedacinhos de multidão, e o medo não compensa.
sábado, 14 de setembro de 2013
Sobre a motivação do Blog, e outras.
Olá! Obrigado por abrir esta página. Se você me conhece, sabe que eu tenho muita coisa na cabeça, e pouca disposição, e as vezes pouco tempo, para dizer tudo. Já faz muito tempo que eu quero criar um blog para falar sobre tudo aquilo que eu acho relevante na vida
Afinal, o que é mais importante na vida do que saber o que é importante? Antes de tudo, vem a pergunta "o que é importante?". As vezes acho que nos focamos pouco nela. Eu mesmo me pergunto isso, de diversas formas, quase todos os dias, e mesmo assim não me parece o suficiente. Para me ajudar, e ajudar você, a saber o que é realmente importante, criei "O hábito do monge". Um blog de filosofia, estilo de vida, política, tecnologia, arte e conhecimento, levando um viés existencialista-desenvolvimentista-budista. Eu escolhi fazer um blog "pot-pourri" ao invés de 10 blogs, porque frequentemente esses assuntos se conectam em linhas de raciocínio, numa mesma postagem.
Então, como meu primeiro post, faço a reflexão primordial dos diversos assuntos que levam a este blog, que é, antes de tudo, um blog de bem-estar: "o que é importante?". Raramente levamos a sério a importância do importante. Respondemos a questão da forma mais cômoda possível, de forma a garantir que a pergunta não tenha impacto nas nossas vidas. É assim que nos afastamos dos primórdios do que nos faz bem.
Hoje mais cedo eu disse a uma amiga "Um dos grandes propósitos da minha vida é mudar o imutável". Assim, eu vou no mínimo tentar destruir tudo aquilo no que você se baseia. Normalmente quando as pessoas dizem isso, não fazem pra valer. Eu farei mesmo. Vou tentar (não garanto conseguir) desconstruir o amor, essa palavra maldita, vou desconstruir a relação cidade-estresse e campo-tranquilidade, vou desconstruir o valor do consumo, mas também o do conhecimento. Vou desconstruir a natureza de nossas relações, toda a moral humana, e a nossa relação com certezas e dúvidas. Vou desconstruir as religiões, o teísmo, o ateísmo e até o agnosticismo. Vou desconstruir o que eu conseguir.
Mas por mais que eu admire muito Nietzsche, não sou só dinamite. Eu vou reconstruir tudo isso, de uma forma que me pareça conveniente. O que eu peço é que não use as diferenças entre eu e você como combustível para preconceitos. Se você discorda, eu faço absoluta questão de que poste um comentário discutindo comigo. Eu vou responder, e você vai responder, e eu prometo que se você não deixar isso criar uma tensão entre nós, eu também não vou. No pior dos casos, nenhum de nós vai aprender nada com o outro, mas vamos reforças nossas convicções individualmente. No melhor dos casos, vamos mudar o imutável.
Talvez este blog não tenha a atenção que eu gostaria. A questão é que é cansativo discutir a vida. Queremos parar logo de discuti-la e vivê-la. A questão é: você está pronto? Amanhã um parente morre, ou seu dia será ruim. Se você não pensou em como lidaria com algo assim, ou não estava psicologicamente preparado para a ideia de que algo ruim podia acontecer, você devia ter pensado mais nisso.
Nunca estamos prontos para a vida. Ela sempre vai nos pegar de surpresa, mas podemos aprender a mudar o que as coisas significam para nós, mudando quem nós somos. Então, sem mais nem menos, vamos ler no ônibus! Vamos fazer sexo! Vamos trabalhar pouco e gastar pouco! Vamos parar de falar sobre o clima e falar coisas mais divertidas, ou mais importantes! Vamos meditar no fim da noite! Vamos deixar de esperar o que falta e vermos quanta coisa boa já temos! Vamos comer hambúrguer com muito molho especial! Vamos ouvir nossa música favorita e caminhar pela cidade observando a paisagem! Vamos viver, como viver for!
Afinal, o que é mais importante na vida do que saber o que é importante? Antes de tudo, vem a pergunta "o que é importante?". As vezes acho que nos focamos pouco nela. Eu mesmo me pergunto isso, de diversas formas, quase todos os dias, e mesmo assim não me parece o suficiente. Para me ajudar, e ajudar você, a saber o que é realmente importante, criei "O hábito do monge". Um blog de filosofia, estilo de vida, política, tecnologia, arte e conhecimento, levando um viés existencialista-desenvolvimentista-budista. Eu escolhi fazer um blog "pot-pourri" ao invés de 10 blogs, porque frequentemente esses assuntos se conectam em linhas de raciocínio, numa mesma postagem.
Então, como meu primeiro post, faço a reflexão primordial dos diversos assuntos que levam a este blog, que é, antes de tudo, um blog de bem-estar: "o que é importante?". Raramente levamos a sério a importância do importante. Respondemos a questão da forma mais cômoda possível, de forma a garantir que a pergunta não tenha impacto nas nossas vidas. É assim que nos afastamos dos primórdios do que nos faz bem.
Hoje mais cedo eu disse a uma amiga "Um dos grandes propósitos da minha vida é mudar o imutável". Assim, eu vou no mínimo tentar destruir tudo aquilo no que você se baseia. Normalmente quando as pessoas dizem isso, não fazem pra valer. Eu farei mesmo. Vou tentar (não garanto conseguir) desconstruir o amor, essa palavra maldita, vou desconstruir a relação cidade-estresse e campo-tranquilidade, vou desconstruir o valor do consumo, mas também o do conhecimento. Vou desconstruir a natureza de nossas relações, toda a moral humana, e a nossa relação com certezas e dúvidas. Vou desconstruir as religiões, o teísmo, o ateísmo e até o agnosticismo. Vou desconstruir o que eu conseguir.
Mas por mais que eu admire muito Nietzsche, não sou só dinamite. Eu vou reconstruir tudo isso, de uma forma que me pareça conveniente. O que eu peço é que não use as diferenças entre eu e você como combustível para preconceitos. Se você discorda, eu faço absoluta questão de que poste um comentário discutindo comigo. Eu vou responder, e você vai responder, e eu prometo que se você não deixar isso criar uma tensão entre nós, eu também não vou. No pior dos casos, nenhum de nós vai aprender nada com o outro, mas vamos reforças nossas convicções individualmente. No melhor dos casos, vamos mudar o imutável.
Talvez este blog não tenha a atenção que eu gostaria. A questão é que é cansativo discutir a vida. Queremos parar logo de discuti-la e vivê-la. A questão é: você está pronto? Amanhã um parente morre, ou seu dia será ruim. Se você não pensou em como lidaria com algo assim, ou não estava psicologicamente preparado para a ideia de que algo ruim podia acontecer, você devia ter pensado mais nisso.
Nunca estamos prontos para a vida. Ela sempre vai nos pegar de surpresa, mas podemos aprender a mudar o que as coisas significam para nós, mudando quem nós somos. Então, sem mais nem menos, vamos ler no ônibus! Vamos fazer sexo! Vamos trabalhar pouco e gastar pouco! Vamos parar de falar sobre o clima e falar coisas mais divertidas, ou mais importantes! Vamos meditar no fim da noite! Vamos deixar de esperar o que falta e vermos quanta coisa boa já temos! Vamos comer hambúrguer com muito molho especial! Vamos ouvir nossa música favorita e caminhar pela cidade observando a paisagem! Vamos viver, como viver for!
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