domingo, 15 de setembro de 2013

Multidões: sardinhas e shows.



   Todos aqueles que moram ou já moraram em uma cidade grande sabem o que é uma multidão, e como se sentem em relação a ela. Especialmente quem depende do transporte público. Mas mesmo o mais rico, frequentador de Itau Personalité e que nunca pegou um ônibus na vida precisa eventualmente ir a um poupatempo fazer um documento. Sim, todos nós já estivemos defronte de uma grande extensão de espaço ocupado por muita gente.

A maioria das pessoas sente algo diferente em multidões, e geralmente é um incômodo. De fato, ninguém gosta de pegar o metrô na Sé as seis da tarde numa sexta-feira. Ou será que gosta?


    A questão é: qual é o problema de uma multidão? Por que nos estressa? "Ah, me estressa muito". Eu sei, eu sei, mas a pergunta é: que mecanismo leva a visão de muitas pessoas ao seu redor à sua angústia.

    Pode ser  porque sua mobilidade pessoal fica reduzida e a temperatura aumenta. Apesar disso, outros casos extremos assim, como o Rock in Rio, ou qualquer balda lotada, são bem mais toleráveis. Você preferiria assistir um show sozinho, ou estar na multidão sufocante? Prefere uma balada com pouca gente ou uma balada "bombando"? Eu, que não sou um grande fã de shows ao vivo e detesto baladas, sou suspeito para responder, mas percebo que existe um apelo na multidão do show que não existe, definitivamente, no metrô.
    Talvez seja porque, no show e na balada, estamos em uma atividade de lazer. Mas não podemos ouvir música, com um fone de ouvido, na multidão do metrô? Qual é, efetivamente, a diferença entre a atividade de lazer e a locomoção?
    A melhor resposta que tenho para isso se relaciona com uma natureza primordial do paulistano: numa conurbação de 11 milhões de pessoas, metade da população da Austrália inteira, precisamos nos afastar do desconhecido, e abraçar padrões. Temos medo de uma multidão gerada aleatoriamente, e ficamos confiantes com um padrão que podemos associar a todas as pessoas à nossa volta. Por isso existe toda uma divisão de estilos de baladas, com tipos diferentes de músicas e, mesmo quando tocam as mesmas músicas, ambientes diferentes chamando públicos diferentes. Por isso reclamamos do Rock in Rio tocar música Pop. Por isso existe uma certa aversão de algumas pessoas ao Carnaval, embora exista um estilo carnavalesco, ele não é específico o suficiente para muita gente.
    Quando não podemos dizer nada sobre a pessoa ao nosso lado, temos medo dela. Não confiamos nas estatísticas, não queremos saber se alguém vai mesmo nos fazer mal, não estamos dispostos a arriscar, a menos que conheçamos o gosto musical ou o padrão estético da multidão, e não necessariamente a quantidade de pessoas de má intenção.
    Existe também, especificamente em baladas, um fenômeno que pretendo desenvolver em outra postagem: a transgressão coletiva. Nos sentimos bem em estarmos em um ambiente onde todos podem transgredir algumas regras, e isso porque acreditamos nelas, mas queremos transgredi-las em um lugar onde todos estejam, para aliviar nossa culpa individual. Nesse caso, quanto mais gente, e quanto mais gente por metro quadrado ficando, mais seguro você se sente para fazê-lo também.
    Nas multidões aleatórias, nos sentimos obrigados a ficar alerta, a prestar uma atenção preocupada em tudo. A mesma quantidade de atenção que prestamos em pessoas bonitas na balada, mas uma atenção tensa, cuidadosa. Assim, recebemos um overflow de informações, que nos estressa enfim. Com o trânsito funciona de uma forma muito semelhante.
   Agora você pergunta "Ok, concordo com sua teoria legal, mas... E daí? O que posso fazer a respeito?" Lembre-se do propósito deste blog, que eu expliquei no primeiro post: eu quero mudar o imutável. Nesse caso, o imutável nem é tão imutável assim. Ele parece ser porque é muito coletivo. Justamente por multidões serem cheias de gente, tem muita gente se preocupando com elas. Quando um fenômeno social é muito amplamente aceito, ele parece imutável. Não é. Algumas coisas são difíceis de mudar, mas a sensação de estar em uma multidão é quase totalmente psicológica, e o que é psicológico pode ser mudado psicologicamente, através de compreensão e motivação (não estou falando de claustrofobia, mas do seu precursor não-patológico, que você pode tratar sozinho).
    É possível não se incomodar com multidões. É possível andar pela estação da Sé as seis da tarde como se estivesse simplesmente passeando por um parque. O importante é mudar o efeito de cada informação para você. Informação-pessoa, nesse caso. O que é, para você paulistano, um outro paulistano? O noticiário nos mostra, todos os dias, casos de assassinato, atropelamento, estupro, violência, sofrimento, morte. A questão é que não tomamos esses casos estatisticamente. Preocupar-se vale a pena? Vou dedicar ainda outra postagem só a essa pergunta, então não digo muito.
    Mas posso adiantar que, pelo menos nas multidões, por mais aleatórias que sejam, por mais desconhecidos que sejam os desconhecidos, são só pessoas. Eles estão com tanto medo de você quanto você deles, e se algum deles realmente quiser fazer mal, bem, é uma multidão, a chance de ser você é pequena. E acredite, preocupar-se não vai adiantar. Ser cuidadoso sim: mantenha seus pertences bem fechados e os zíperes ao alcance da sua vista. Fora isso, não há o que fazer. Não compensa viver com medo para salvaguardar seus pertences que, no fim, você vai acabar perdendo em situações nas quais toda a preocupação do mundo não os salvaria.
    Faça o exercício: da próxima vez que encontrar uma multidão, dessas que angustiam, olhe para as pessoas e tente criar histórias divertidas para a vida delas. "Este aqui teve uma infância difícil, saiu de casa muito cedo, mas se deu bem na vida", "este aqui coleciona tampinhas de garrafa, uma das maiores coleções da cidade, e tem um filho muito bonito". Tente aproximar as pessoas de você (metaforicamente falando), sentir-se mais a vontade em um grupo de pessoas que, no final das contas, tem muito a ver com você, embora você não saiba o quê, exatamente. Aos poucos, comece a ignorá-las. Não veja o lugar como se estivesse vazio, não sonhe com praias desertas, não fuja da ideia da multidão, enfrente-a. Se você for como eu, as vezes vai sentir um calor súbito, que dá a angustiante sensação de que seu corpo vai continuar esquentando para sempre. Relaxe, e deixe o calor passar. Ele vai passar, porque não é calor, é nervosismo (a menos que seja mesmo calor, caso no qual recomendo muito um ventiladorzinho portátil). Ouça música, jogue no celular, leia um livro, ou simplesmente aproveite a caminhada/espera/viagem para refletir, sonhar, imaginar, criar. Nosso tempo é nosso, nossa mente é nossa, e funciona sozinha ou acompanhada. E não ignore a multidão. Seu propósito é se acostumar com ela, estar bem com ela, não fugir dela. É difícil fugir de algo que literalmente te cerca. Lembre-se: se você não pensar "quero me acostumar com a multidão" quando estiver lá, não vai fazer nenhum movimento consciente, e vai estar largado ao aleatório, um aleatório muito mais perigoso do que uma multidão quieta esperando o metrô: o aleatório tendencioso das influências humanas, do "já que todos se estressam..."
   Afinal, a multidão não é uma oportunidade? Eu, pessoalmente, ando sempre com uma folha sulfite com a palavra "sorria" impressa nela, bem grande. Quando me sinto a vontade, levanto a placa no metrô e nos lugares lotados. Outro dia conto minha experiência com isso detalhadamente, o que posso dizer é que eu acabo ficando feliz com as multidões, porque significa muita gente para expor à minha humilde e bem humorada intervenção urbana.
    Lembre-se: a multidão é você também. Somos todos pedacinhos de multidão, e o medo não compensa.

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