"A internet promove a falsidade"
Não. Ela a amplifica. A falsidade não é um ato, é um fato. Não é comunicar uma inverdade, mas desejar a inverdade. E só é possível desejar a inverdade quando a verdade não representa nossos desejos. Assim foi o século XX, esse século de falsificação de massas. Do totalitarismo ao consumismo, do neocolonialismo aos blocos econômicos, do comunismo à globalização, foram forjados valores que falsificavam sua universalidade. A universalidade, um dos grandes temas da modernidade, foi uma mentira suja de cem anos de duração.
Dizer que a internet criou essa mentira é estar cego às bases de nossa sociedade. Ela sempre existiu: na medida em que a comunicação de massas permitiu a falsificação, a identidade pessoal tornou-se um transmissor de idéias, e não de verdades num sentido naturalista. Che Guevara não é uma pessoa. Marilyn Monroe não é uma pessoa. A foto de perfil não é uma pessoa. Quando a comunicação passou a ser impessoal, o emissor fundiu-se à mensagem. Mas quanto mais impessoal se torna a comunicação, mais esse emissor é mastigado pelas engrenagens do sentido.
E a internet está matando o emissor. Matando a identidade. Matando os próprios preconceitos que nos levaram um dia a achar que a verdade estava em sujeitos. Se a internet por um lado amplia e veicula os velhos meios, por outro ela os torna extremamente desconfortáveis. A internet primitiva, aquela que imita a alienação de massas antes vigente, alimenta nosso pessimismo informático. Mas a internet esclarecida, a internet sem líderes, sem bibliografia e inconstante por excelência, ensina cada vez mais que a veracidade e a falsidade estão nos predicados. E não há uma gota de exagero em dizer que essa lição está entre as mais importantes que a humanidade, como entidade una, já aprendeu.
Resta saber, apenas, quanto poder essa comuna anarquista global terá sobre sua comunidade. O quanto a internet mudará a alienação das massas, e o quanto a alienação das massas limitará a internet. Por enquanto, mantenho-me irremediavelmente otimista.
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quarta-feira, 24 de junho de 2015
domingo, 30 de março de 2014
As três-para-quatro formas de ser contra algo
A "nova classe média" brasileira adora ser contra as coisas. Falo por experiência, como membro dela. Eu ainda pretendo escrever um artigo bem longo sobre como a contingência e a relevância estão sendo varridas da nossa visão política. Por hora, vou tentar não tocar no assunto, senão vou me perder nele.
Apesar disso, ser contra é inevitável. Quando somos a favor de algo, somos contra sua negação. A questão é que, como seres pensantes, queremos ser também seres avaliantes: julgar algo em sua essência e colocar em uma caixinha que diz "certo" ou em outra que diz "errado". Infelizmente, nem sempre é tão simples, e maus avaliadores, ao perceberem isso, forçam a caixinha, não querendo adaptar seu "certo" aos argumentos contrários.
Uma questão fundamental é que as pessoas querem ser contra algo. É como a fé trabalha: parcialmente. E isso leva, frequentemente, ao que eu considero a falacia lógica mais comum na política brasileira: O ignoratio elenchi
Ignoratio elenchi significa ignorar uma refutação. Quando eu acredito em A e alguém diz B, raramente eu tento contextualizar B, eu simplesmente respondo "A!". Se a pessoa contesta meu A com um C, eu digo "mas D é inquestionável!", sendo que a questão não pode ser resolvida só com A e D. Poucas vezes explicamos porque o que o outro disse está errado, normalmente apresentamos outras evidências de nosso argumento, sem querer chegar a uma conclusão que não seja a nossa conclusão, que é produzida exclusivamente pelos nossos argumentos.
Essa falácia é causada por não entendermos que há mais a uma discussão do que ser contra algo, como "sou contra o Lula" ou "sou contra o PSDB". Não faz sentido dizer simplesmente isso.
Ser contra é ser contra um verbo: o processo político exige que votemos. E em votar, está rejeitar pessoas. Rejeitar uma pessoa, porém, não é ser contra ela, porque a pessoa, na política, é uma referência ao que ela representa. Se um grande líder muda de posição política, devemos mudar nossos favoritismos também. E raramente mudamos. Queremos ser contra O Lula, e assim somos contra tudo o que ele faz antes mesmo de fazer. As vezes somos contra 90% do que um faz, e assim tendemos a ser contra os outros 10%, mesmo que sejam coisas das quais seriamos a favor se outros fizessem.
Assim, geralmente quando há um ato, como "as manifestações de 2013", "mulheres mostrando os peitos em protestos feministas" ou "A implantação de uma ditadura militar", existem duas políticas pelas quais podemos considerar o ato: o ato em si e as consequências que ele pretende. As manifestações de 2013 envolviam "o ato de se manifestar" e "as diversas propostas apresentadas", os protestos feministas envolvem "o ato de mostrar-se de topless" e "as mudanças sociais que se pretende atingir com o ato", a implantação de uma ditadura envolve "o ato de estabelecer um sistema político não-democrático" e "as consequências de se viver em uma ditadura, e suas propostas"
Ser contra um ato é ser contra o direito de realizá-lo. Não necessariamente o direito legal, mas um direito moral. O bullying não deve ser caso de justiça, mas o ato não deve ser tolerado. Essencialmente ser contra um ato é considerar que devem haver medidas para evitá-lo.
Ser contra as consequências pretendidas de um ato é algo com o que devemos tomar mais cuidado. Ser contra o ato é ser contra as consequências reais desse ato, quaisquer que sejam. As consequências pretendidas, porém, frequentemente são outras. Raramente lembramos do fato de que a maioria das coisas são feitas com bons resultados em mente. Em assassinar duas milhões de pessoas, o regime do Khmerr Vermelho tinha como consequências pretendidas preservar a tradição cultural do Camboja. As consequências reais foram um genocídio, e a deposição do Khmerr com intervenção internacional. Podemos, porém, ser a favor de preservar tradições culturais sem precisarmos ser a favor de matar qualquer um que não faça isso. Nesse quesito, "ser contra o Khmerr Vermelho" se torna algo mais complexo.
Assim, existem três-para-quatro combinações de "a favor" e "contra" para cada ato.
1) Ser contra o direito de fazê-lo: implica em deslegitimar o ato como um todo. Não implica necessariamente em discordar com as consequências pretendidas, mas significa discordar com as consequências reais (ou o que você acha que são as consequências reais) do ato. É o "achar errado", o reprimir. Aqui se encaixam os crimes e falhas de caráter, embora exatamente quais seja subjetivo, afinal não discordamos todos das mesmas coisas
2) Ser a favor do ato, mas contra suas consequências pretendidas: isso pode parecer estranho, mas podemos reconhecer que algumas vezes os atos pretendem consequências ruins, mas causam consequências boas. Embora, por exemplo, uma revolta tenha revindicações absurdas, ela pode ser vantajosa por movimentar interesse político e debates sobre essas propostas. Essa é uma possibilidade que raramente consideramos quando somos maus avaliadores: a possibilidade de algo produzir bons resultados que não são os resultados que pretende produzir. Quando odiamos a ideologia, tendemos a prever resultados catastróficos caso seja aplicada. Mas nem sempre é o caso.
3) Ser a favor das propostas, mas considerar que o ato não é uma forma de atingi-las: a um bom avaliador, esta é a resposta mais comum. Todos temos noções comuns sobre o que é bom e o que é ruim, mas raramente concordamos quanto às formas de se chegar lá. É o contrário da 2: somos a favor das consequências pretendidas e contra as consequências reais. É importante identificar primeiro quando discordamos com relação às consequências pretendidas, porque isso da um outro nível à discussão. Uma coisa é discutir alternativas, outra é discutir ideologias, e em cada discussão você precisa saber o que está sendo discutido.
4) Ser a favor do ato e de suas propostas, mas considerá-lo uma forma ineficiente ou complicada de realizá-las: o motivo do três-para-quatro é que é controverso se isto ainda é "ser contra". Como engenheiro, eu descarto uma alternativa ineficaz com a mesma rapidez com que descarto uma alternativa impossível, mas não posso negar que há uma diferença fundamental entre elas. Essencialmente é importante saber que nada está isento dessa discussão, por mais que sejamos a favor do ato e de suas consequências, é sempre importante perguntar "essa é a melhor maneira de fazer isso?" as vezes, por mais nobre que seja, não será. Essa é minha opinião sobre as manifestações de 2013. Fui a favor do ato, e de parte das revindicações (por mais vagas que tenham sido, poucas eram absurdas), mas acho o ato de se manifestar em grandes grupos e sem pauta uma forma vaga de chegar a essas resoluções, ou de politizar um povo.
Discutir um ato político envolve determinar onde há discordância entre as partes, e resolvê-las localizadas. Não adianta discutir a proposta de um grupo se você está considerando a legitimidade do ato, e não adianta falar mal ou bem do ato se seu desgosto é com o que está proposto. E é engraçado ver como o ignoratio elenchi sempre acontece flutuando entre um e outro. Se o argumento é a favor da proposta, refutam atacando o partido, se o argumento é a favor partido, refutam expondo a proposta. Segure suas minúcias e boas discussões! Lembre-se: é mais importante estar certo depois da discussão do que antes dela.
Apesar disso, ser contra é inevitável. Quando somos a favor de algo, somos contra sua negação. A questão é que, como seres pensantes, queremos ser também seres avaliantes: julgar algo em sua essência e colocar em uma caixinha que diz "certo" ou em outra que diz "errado". Infelizmente, nem sempre é tão simples, e maus avaliadores, ao perceberem isso, forçam a caixinha, não querendo adaptar seu "certo" aos argumentos contrários.
Uma questão fundamental é que as pessoas querem ser contra algo. É como a fé trabalha: parcialmente. E isso leva, frequentemente, ao que eu considero a falacia lógica mais comum na política brasileira: O ignoratio elenchi
Ignoratio elenchi significa ignorar uma refutação. Quando eu acredito em A e alguém diz B, raramente eu tento contextualizar B, eu simplesmente respondo "A!". Se a pessoa contesta meu A com um C, eu digo "mas D é inquestionável!", sendo que a questão não pode ser resolvida só com A e D. Poucas vezes explicamos porque o que o outro disse está errado, normalmente apresentamos outras evidências de nosso argumento, sem querer chegar a uma conclusão que não seja a nossa conclusão, que é produzida exclusivamente pelos nossos argumentos.
Essa falácia é causada por não entendermos que há mais a uma discussão do que ser contra algo, como "sou contra o Lula" ou "sou contra o PSDB". Não faz sentido dizer simplesmente isso.
Ser contra é ser contra um verbo: o processo político exige que votemos. E em votar, está rejeitar pessoas. Rejeitar uma pessoa, porém, não é ser contra ela, porque a pessoa, na política, é uma referência ao que ela representa. Se um grande líder muda de posição política, devemos mudar nossos favoritismos também. E raramente mudamos. Queremos ser contra O Lula, e assim somos contra tudo o que ele faz antes mesmo de fazer. As vezes somos contra 90% do que um faz, e assim tendemos a ser contra os outros 10%, mesmo que sejam coisas das quais seriamos a favor se outros fizessem.
Assim, geralmente quando há um ato, como "as manifestações de 2013", "mulheres mostrando os peitos em protestos feministas" ou "A implantação de uma ditadura militar", existem duas políticas pelas quais podemos considerar o ato: o ato em si e as consequências que ele pretende. As manifestações de 2013 envolviam "o ato de se manifestar" e "as diversas propostas apresentadas", os protestos feministas envolvem "o ato de mostrar-se de topless" e "as mudanças sociais que se pretende atingir com o ato", a implantação de uma ditadura envolve "o ato de estabelecer um sistema político não-democrático" e "as consequências de se viver em uma ditadura, e suas propostas"
Ser contra um ato é ser contra o direito de realizá-lo. Não necessariamente o direito legal, mas um direito moral. O bullying não deve ser caso de justiça, mas o ato não deve ser tolerado. Essencialmente ser contra um ato é considerar que devem haver medidas para evitá-lo.
Ser contra as consequências pretendidas de um ato é algo com o que devemos tomar mais cuidado. Ser contra o ato é ser contra as consequências reais desse ato, quaisquer que sejam. As consequências pretendidas, porém, frequentemente são outras. Raramente lembramos do fato de que a maioria das coisas são feitas com bons resultados em mente. Em assassinar duas milhões de pessoas, o regime do Khmerr Vermelho tinha como consequências pretendidas preservar a tradição cultural do Camboja. As consequências reais foram um genocídio, e a deposição do Khmerr com intervenção internacional. Podemos, porém, ser a favor de preservar tradições culturais sem precisarmos ser a favor de matar qualquer um que não faça isso. Nesse quesito, "ser contra o Khmerr Vermelho" se torna algo mais complexo.Assim, existem três-para-quatro combinações de "a favor" e "contra" para cada ato.
1) Ser contra o direito de fazê-lo: implica em deslegitimar o ato como um todo. Não implica necessariamente em discordar com as consequências pretendidas, mas significa discordar com as consequências reais (ou o que você acha que são as consequências reais) do ato. É o "achar errado", o reprimir. Aqui se encaixam os crimes e falhas de caráter, embora exatamente quais seja subjetivo, afinal não discordamos todos das mesmas coisas
2) Ser a favor do ato, mas contra suas consequências pretendidas: isso pode parecer estranho, mas podemos reconhecer que algumas vezes os atos pretendem consequências ruins, mas causam consequências boas. Embora, por exemplo, uma revolta tenha revindicações absurdas, ela pode ser vantajosa por movimentar interesse político e debates sobre essas propostas. Essa é uma possibilidade que raramente consideramos quando somos maus avaliadores: a possibilidade de algo produzir bons resultados que não são os resultados que pretende produzir. Quando odiamos a ideologia, tendemos a prever resultados catastróficos caso seja aplicada. Mas nem sempre é o caso.
3) Ser a favor das propostas, mas considerar que o ato não é uma forma de atingi-las: a um bom avaliador, esta é a resposta mais comum. Todos temos noções comuns sobre o que é bom e o que é ruim, mas raramente concordamos quanto às formas de se chegar lá. É o contrário da 2: somos a favor das consequências pretendidas e contra as consequências reais. É importante identificar primeiro quando discordamos com relação às consequências pretendidas, porque isso da um outro nível à discussão. Uma coisa é discutir alternativas, outra é discutir ideologias, e em cada discussão você precisa saber o que está sendo discutido.
4) Ser a favor do ato e de suas propostas, mas considerá-lo uma forma ineficiente ou complicada de realizá-las: o motivo do três-para-quatro é que é controverso se isto ainda é "ser contra". Como engenheiro, eu descarto uma alternativa ineficaz com a mesma rapidez com que descarto uma alternativa impossível, mas não posso negar que há uma diferença fundamental entre elas. Essencialmente é importante saber que nada está isento dessa discussão, por mais que sejamos a favor do ato e de suas consequências, é sempre importante perguntar "essa é a melhor maneira de fazer isso?" as vezes, por mais nobre que seja, não será. Essa é minha opinião sobre as manifestações de 2013. Fui a favor do ato, e de parte das revindicações (por mais vagas que tenham sido, poucas eram absurdas), mas acho o ato de se manifestar em grandes grupos e sem pauta uma forma vaga de chegar a essas resoluções, ou de politizar um povo.
Discutir um ato político envolve determinar onde há discordância entre as partes, e resolvê-las localizadas. Não adianta discutir a proposta de um grupo se você está considerando a legitimidade do ato, e não adianta falar mal ou bem do ato se seu desgosto é com o que está proposto. E é engraçado ver como o ignoratio elenchi sempre acontece flutuando entre um e outro. Se o argumento é a favor da proposta, refutam atacando o partido, se o argumento é a favor partido, refutam expondo a proposta. Segure suas minúcias e boas discussões! Lembre-se: é mais importante estar certo depois da discussão do que antes dela.
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terça-feira, 26 de novembro de 2013
Menos justiça e mais vida
Há algum tempo, circulou pela internet um vídeo de um policial matando um ladrão. Fiquei impressionado. Não com o vídeo, acontece, e não tenho pena do ladrão. Mas eu esperava outra resposta das pessoas que também o viram. Coisas como "Merecido, tinha que fazer isso com todos", ou "Bandido bom é bandido morto" superaram muito em quantidade os comentários de não-violência.
Antes que me perguntem, não, não tenho pena do ladrão, como eu fiz questão de dizer. Não tenho pena de ninguém, acho que cada um de nós tem sua pena, e Anúbis que cuide dela quando morrermos. O que eu tenho é a sensação de que nos beneficiaríamos muito de rever nossos conceitos de justiça.
Imagine duas pessoas. Uma delas é má, terrível, absolutamente cruel e deseja o sofrimento de todos. Outra é um mártir benfeitor, um Jesus, um Buda, alguém capaz da mais pura e sincera bondade. Suponha que essas sejam as únicas duas pessoas do mundo. Qual é a melhor situação?
(1) O mau vive infeliz, e o bom vive feliz
(2) Ambos vivem felizes
É aqui que entram noções conflitantes de justiça, noções estas muito fundamentais.
(1) Justiça como causalidade: que cada um tenha o que merece, por sua natureza e suas intenções
(2) Justiça como Bem: que cada um tenha todo o bem que puder
É claro que meu exemplo não é social, pois duas pessoas não são uma sociedade, mas ele alude à justiça como algo fundamental. Se você prefere a justiça do tipo (1), devo reconhecer a coerência em que você defenda a pena de morte. Apesar disso, peço seu respeito, como alguém que acha, e sempre achará, que o ideal é que todos sejam felizes.
Vamos então ampliar o exemplo para uma sociedade. Numa sociedade não é tão simples, pois nem todos os "bons" são Samaritanos, que não se incomodariam com a atuação dos maus. Há violência, roubo, prejuízo às partes inocentes. Esses são os nossos inimigos, mas não vejo por que estender a inimizade aos autores deles. É algo de violência, de revanchismo, do mesmo tipo de raiva.
Não estou dizendo que o ladrão seja um coitado, porque a sociedade o fez ladrão, ou algo parafrásico. Acho que somos responsáveis pelo que nós nos fazemos e também pelo que a sociedade nos faz, mas responsabilidade, no caso, implica em arcar com limitações, não com sofrimento, infelicidade e morte. Responsabilidade é deixar de fazer o mal, não deixar de receber o bem.
E se você acha que o ladrão não tem correção, devo discordar fortemente, mas mesmo que você esteja certo, independente de merecer ou não, não é bom que o ladrão possa, além do assaltado, viver feliz? A morte do ladrão não faz bem ao assaltado, e sua prisão não faz mal ao assaltado. Ao que foi assaltado, depois que a polícia renda e prenda o ladrão, tanto faz o que acontece com ele. Ou tanto faria, se o assaltado não tivesse uma raiva vingativa. Qual é a real vantagem dessa raiva então, que só serve para condicionar o ladrão à punição? "Tem que morrer". Não, não tem. Ninguém o obriga a morrer, e se a prisão não o corrigir, isso é culpa da organização da prisão, não da sua existência. Se matarmos todos os ladrões, não atingiremos uma utopia sem ladrões. Talvez isso possa diminuir a quantidade de roubos, mas vai aumentar a quantidade de mortes. "As vidas desses bandidos são sujas". No meu conceito de justiça, toda vida é limpa o suficiente para merecer existir. Uma vida vale mais do que dinheiro, independente da vida. O ladrão pode sim ser feliz. Concordo que o assaltado tem prioridade, mas dado que o ladrão seja controlado, essa prioridade está garantida, desde que o ladrão seja mantido longe da sociedade até que esteja pronto para voltar
Eu fico triste com como nossas prisões são mais cárceres do que reformatórios. Os egressos do sistema penal voltam a cometer crimes porque simplesmente colocá-lo numa caixa de ferro, exposto a organizações criminosas e pessoas que vivem bem descumprindo a lei dentro da cadeia, não vai fazê-lo entender que pode ser feliz sem aquilo. Estamos tristes na rua, tristes assaltando, tristes presos, e tristes longe disso tudo, porque a violência continua acontecendo. E podemos ser felizes sim, todos nós, criminosos e honestos. Não é uma questão de merecer, é uma questão, simplesmente, do que é melhor para todos. "É impossível agradar a todos". Concordo, mas quando essa frase for usada para nos desestimular de tentar, eu discordarei. A primeira prioridade, para mim, seria proteger a sociedade honesta, e por isso, se não podemos reformar o preso, que pelo menos o mantenha-os afastados do mundo. Mas eu tenho certeza que, se tortura e trabalhos forçados são punições cruéis, a morte é pior ainda. Faça-se um exercício social. Pergunte aos presos se preferem morrer ou viver trabalhando doze horas por dia, sendo mal alimentados, mas tendo um pouco de lazer.
É muito mais cruel matar do que punir de uma forma não dispendiosa aos recursos de um estado. Se você não acha que o criminoso pode ser corrigido, permita-o viver se redimindo, mas viver. Sua raiva do assassino é uma raiva assassina, a mesma que ele sentiu quando se sentiu injustiçado, e por isso matou. Julgue o criminoso sem raiva, mas com a noção de que até a pessoa que lhe fez mais mal merece ser feliz. Todo mundo merece ser feliz. Nem todos merecem mordomias, regalias, tranquilidade, mas a vida, como um potencial de felicidade, é sempre melhor do que a morte.
"Você não pode falar, porque nunca teve uma arma apontada para a sua cabeça". Isso significa que apenas quem tem raiva de criminosos pode opinar a respeito do destino deles? Isso é um apelo à parcialidade. É equivalente a dizer que só quem já foi pobre pode decidir o que os pobres merecem em termos de benefícios estatais, que só quem já foi agredido por negros pode decidir se eles merecem punições diferenciadas, que nenhum presidente pode governar, porque tem poder sobre coisas que nunca experimentou. Infelizmente, nossa sociedade se constrói de modo frio, indireto, imparcial, e não há outro modo de ser. É justamente por não ter essa raiva assassina de quem já foi assaltado que eu posso falar. E eu tenho certeza absoluta que, se uma arma fosse apontada para a minha cabeça, eu ia desejar que ela deixasse de estar, e não ia me importar com uma vingança fria sobre quem apontou, só ia querer que tudo ficasse bem para mim.
Antes que me perguntem, não, não tenho pena do ladrão, como eu fiz questão de dizer. Não tenho pena de ninguém, acho que cada um de nós tem sua pena, e Anúbis que cuide dela quando morrermos. O que eu tenho é a sensação de que nos beneficiaríamos muito de rever nossos conceitos de justiça.
Imagine duas pessoas. Uma delas é má, terrível, absolutamente cruel e deseja o sofrimento de todos. Outra é um mártir benfeitor, um Jesus, um Buda, alguém capaz da mais pura e sincera bondade. Suponha que essas sejam as únicas duas pessoas do mundo. Qual é a melhor situação?
(1) O mau vive infeliz, e o bom vive feliz
(2) Ambos vivem felizes
(1) Justiça como causalidade: que cada um tenha o que merece, por sua natureza e suas intenções
(2) Justiça como Bem: que cada um tenha todo o bem que puder
É claro que meu exemplo não é social, pois duas pessoas não são uma sociedade, mas ele alude à justiça como algo fundamental. Se você prefere a justiça do tipo (1), devo reconhecer a coerência em que você defenda a pena de morte. Apesar disso, peço seu respeito, como alguém que acha, e sempre achará, que o ideal é que todos sejam felizes.
Vamos então ampliar o exemplo para uma sociedade. Numa sociedade não é tão simples, pois nem todos os "bons" são Samaritanos, que não se incomodariam com a atuação dos maus. Há violência, roubo, prejuízo às partes inocentes. Esses são os nossos inimigos, mas não vejo por que estender a inimizade aos autores deles. É algo de violência, de revanchismo, do mesmo tipo de raiva.
Não estou dizendo que o ladrão seja um coitado, porque a sociedade o fez ladrão, ou algo parafrásico. Acho que somos responsáveis pelo que nós nos fazemos e também pelo que a sociedade nos faz, mas responsabilidade, no caso, implica em arcar com limitações, não com sofrimento, infelicidade e morte. Responsabilidade é deixar de fazer o mal, não deixar de receber o bem.
E se você acha que o ladrão não tem correção, devo discordar fortemente, mas mesmo que você esteja certo, independente de merecer ou não, não é bom que o ladrão possa, além do assaltado, viver feliz? A morte do ladrão não faz bem ao assaltado, e sua prisão não faz mal ao assaltado. Ao que foi assaltado, depois que a polícia renda e prenda o ladrão, tanto faz o que acontece com ele. Ou tanto faria, se o assaltado não tivesse uma raiva vingativa. Qual é a real vantagem dessa raiva então, que só serve para condicionar o ladrão à punição? "Tem que morrer". Não, não tem. Ninguém o obriga a morrer, e se a prisão não o corrigir, isso é culpa da organização da prisão, não da sua existência. Se matarmos todos os ladrões, não atingiremos uma utopia sem ladrões. Talvez isso possa diminuir a quantidade de roubos, mas vai aumentar a quantidade de mortes. "As vidas desses bandidos são sujas". No meu conceito de justiça, toda vida é limpa o suficiente para merecer existir. Uma vida vale mais do que dinheiro, independente da vida. O ladrão pode sim ser feliz. Concordo que o assaltado tem prioridade, mas dado que o ladrão seja controlado, essa prioridade está garantida, desde que o ladrão seja mantido longe da sociedade até que esteja pronto para voltar
Eu fico triste com como nossas prisões são mais cárceres do que reformatórios. Os egressos do sistema penal voltam a cometer crimes porque simplesmente colocá-lo numa caixa de ferro, exposto a organizações criminosas e pessoas que vivem bem descumprindo a lei dentro da cadeia, não vai fazê-lo entender que pode ser feliz sem aquilo. Estamos tristes na rua, tristes assaltando, tristes presos, e tristes longe disso tudo, porque a violência continua acontecendo. E podemos ser felizes sim, todos nós, criminosos e honestos. Não é uma questão de merecer, é uma questão, simplesmente, do que é melhor para todos. "É impossível agradar a todos". Concordo, mas quando essa frase for usada para nos desestimular de tentar, eu discordarei. A primeira prioridade, para mim, seria proteger a sociedade honesta, e por isso, se não podemos reformar o preso, que pelo menos o mantenha-os afastados do mundo. Mas eu tenho certeza que, se tortura e trabalhos forçados são punições cruéis, a morte é pior ainda. Faça-se um exercício social. Pergunte aos presos se preferem morrer ou viver trabalhando doze horas por dia, sendo mal alimentados, mas tendo um pouco de lazer.
É muito mais cruel matar do que punir de uma forma não dispendiosa aos recursos de um estado. Se você não acha que o criminoso pode ser corrigido, permita-o viver se redimindo, mas viver. Sua raiva do assassino é uma raiva assassina, a mesma que ele sentiu quando se sentiu injustiçado, e por isso matou. Julgue o criminoso sem raiva, mas com a noção de que até a pessoa que lhe fez mais mal merece ser feliz. Todo mundo merece ser feliz. Nem todos merecem mordomias, regalias, tranquilidade, mas a vida, como um potencial de felicidade, é sempre melhor do que a morte.
"Você não pode falar, porque nunca teve uma arma apontada para a sua cabeça". Isso significa que apenas quem tem raiva de criminosos pode opinar a respeito do destino deles? Isso é um apelo à parcialidade. É equivalente a dizer que só quem já foi pobre pode decidir o que os pobres merecem em termos de benefícios estatais, que só quem já foi agredido por negros pode decidir se eles merecem punições diferenciadas, que nenhum presidente pode governar, porque tem poder sobre coisas que nunca experimentou. Infelizmente, nossa sociedade se constrói de modo frio, indireto, imparcial, e não há outro modo de ser. É justamente por não ter essa raiva assassina de quem já foi assaltado que eu posso falar. E eu tenho certeza absoluta que, se uma arma fosse apontada para a minha cabeça, eu ia desejar que ela deixasse de estar, e não ia me importar com uma vingança fria sobre quem apontou, só ia querer que tudo ficasse bem para mim.
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